Por: Jonas J. Berra
Reproduzo abaixo parte da reportagem de Eliane Brum (Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem) em que vemos a dificuldade de um ateu em viver livremente de seu modo. Veja abaixo:
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| Eliane Brum |
"O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou.
“O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
- Você é evangélico? – ela perguntou.“O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto..."
(Fonte para a reportagem na íntegra:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html#header_comentarios)
Na continuidade da reportagem Eliane procura fazer uma diferenciação entre o catolicismo e o neopentecostalismo. Segundo a sua análise, o catolicismo no Brasil, por determinadas razões, é mais tolerante com o ateísmo, enquanto que a tendência neopentecostal não tem a mesma tolerância.
Ela deixa claro que não esta julgando a fé de ninguém. Apenas quer "tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro".
Ela fornece uma resposta:
"Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante."
Quero deixar também meus sinceros agradecimentos a Eliane Brum pela iniciativa e publicação dessa reportagem. É evidente que os ateus não são aceitos em nossa sociedade. Costumo dizer que a sexualidade e a cor da pele são melhor protegidos do que os não crentes. Mesmo os crentes não são totalmente culpados pelo preconceito que possuem com os não crentes. Me parece que a religião fornece explicações sempre óbvias para o que não é óbvio. Na filosofia costumamos ouvir coisas do tipo: "O ateísmo é uma fé na não existência". Pode até ser. Mas isso deveria ser melhor estudado, pois se costuma dizer que o ateu não tem fé. Não ter fé é o mesmo que ter fé na não existência? Me parece difícil que isso seja verdade. Vou estudar mais sobre o assunto.
(Fonte para a reportagem na íntegra:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html#header_comentarios)
Na continuidade da reportagem Eliane procura fazer uma diferenciação entre o catolicismo e o neopentecostalismo. Segundo a sua análise, o catolicismo no Brasil, por determinadas razões, é mais tolerante com o ateísmo, enquanto que a tendência neopentecostal não tem a mesma tolerância.
Ela deixa claro que não esta julgando a fé de ninguém. Apenas quer "tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro".
Ela fornece uma resposta:
"Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante."
Quero deixar também meus sinceros agradecimentos a Eliane Brum pela iniciativa e publicação dessa reportagem. É evidente que os ateus não são aceitos em nossa sociedade. Costumo dizer que a sexualidade e a cor da pele são melhor protegidos do que os não crentes. Mesmo os crentes não são totalmente culpados pelo preconceito que possuem com os não crentes. Me parece que a religião fornece explicações sempre óbvias para o que não é óbvio. Na filosofia costumamos ouvir coisas do tipo: "O ateísmo é uma fé na não existência". Pode até ser. Mas isso deveria ser melhor estudado, pois se costuma dizer que o ateu não tem fé. Não ter fé é o mesmo que ter fé na não existência? Me parece difícil que isso seja verdade. Vou estudar mais sobre o assunto.
