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19/04/2020

O possível triunfo da ignorância pós-pandemia


Por: Andrej Carraro

Já estamos há semanas nesse período de isolamento social para achatar a curva de contágio da covid-19. É um momento estressante, principalmente quando passamos por uma instabilidade política em que uma parte não está alinhada com as autoridades competentes da Organização Mundial de Saúde, especialistas biólogos e infectologistas. Essa instabilidade é provocada por quem mais deveria zelar pela saúde dos brasileiros: Jair Messias Bolsonaro, presidente do Brasil.
Bolsonaro fazendo um giro pelo comércio em plena Pandemia.
   Entre tanta confusão e desinformação gerando caos e quase que uma guerra civil, o país está à beira de grandes problemas por vir. A crise econômica que não apenas virá ao nosso país posteriormente à pandemia do coronavírus se tornou o argumento que sustenta o lema do presidente e outras autoridades políticas como o governador Romeu Zema de Minas Gerais: “voltar ao trabalho para não prejudicar a economia, pois uma crise econômica irá matar muito mais que a própria pandemia”. A ideia é voltar ao trabalho e implantar o isolamento vertical, que consiste em isolar pessoas do grupo de risco enquanto os que não estão nesse grupo retornam ao trabalho normalmente.
      Mas fato é que o Brasil, anteriormente à pandemia, já passava por uma crise que aprofundava a desigualdade social com aumento do preço da gasolina, do dólar, do gás, de diversos produtos no mercado, de perdas de direitos trabalhistas e aumento de desemprego. Contudo, Paulo Guedes, Ministro da Economia, insiste que o Brasil estava “voando” economicamente antes da pandemia.
      O perigo que o país corre, aos olhos de quem escreve esse texto, é enorme! Não se trata de uma visão pessimista, mas de uma tentativa de ser o mais realista possível se baseando no ponto de vista histórico.
       Historicamente as regiões mais exploradas para extrair riquezas ao continente europeu são África e América Latina. A América foi invadida, saqueada e explorada por países europeus durante séculos onde houve muita luta e sangue derramado devido à exploração desumana em busca de matérias primas, como ouro e pau-brasil que levou ao maior poderio econômico a uma elite que reinava os países da Europa que exploravam a América. Com a África não foi muito diferente. Devido a isso, esses países sempre sofreram com as seguidas explorações que nunca cessaram.
      Com o surgimento dos EUA como uma nova potência econômica mundial do século XX, muda-se o modo operandis, mas não muda o objetivo explorador de um governo que vê países pobres e “em desenvolvimento” da América Latina como seu quintal e como servos de sua ideologia hipócrita e controversa.
      Já é sabido que os EUA financiaram e financiam ditaduras para que países não sejam governados por um grupo político que busca o desenvolvimento e independência econômica e seu país. Foi assim em 1964 no golpe contra o presidente do Brasil João Goulart (Jango), sempre utilizando a narrativa cínica e frenética do anticomunismo até mesmo contra quem sequer se considerava de esquerda, bastava ter alguma política que contrariava os interesses dos Ianques.
Manifestação pró intervenção militar.
      Assim como hoje esse discurso está ganhando forças cada vez maiores que podem muito bem pautarem uma nova onda de um regime autoritário no Brasil. Os elementos estão aí: um presidente militar e uma equipe de maioria da ala militar nas secretarias e ministérios, a anticiência, uma elite empresarial atrasada com grande influência, classe média histérica e raivosa pedindo intervenção militar, o desentendimento com o congresso (principalmente Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre) e o STF e um alinhamento subserviente ao presidente dos EUA Donald Trump, cujo Bolsonaro declarou seu amor com a vergonhosa declaração de I Love you.
      Não sabemos qual será a nova ordem mundial pós-pandemia, não sabemos até que ponto a crise afetará a vida das pessoas. Estamos na total penumbra das incertezas que nos assustam cada vez que nos voltamos a pensá-las. Mas o que é muito assombroso é a subserviência de Bolsonaro ao Trump. O mundo todo estará passando por uma crise que poderá ser a maior de todos os tempos quando a pandemia passar. Principalmente os EUA que historicamente investem em ditaduras nos países da América Latina e o objetivo é claro: precisam de seu “quintal” para explorar os trabalhadores e conseguir manter sua hegemonia econômica mundial. Nesse cenário, vejo a população latina sofrendo com uma forte repressão e uma exploração do trabalho ainda maior pela influência da política exploratória estadunidense desesperada passando por uma pesada crise. Vejo também um sofrimento ainda maior das populações indígenas e o agravamento dos problemas da Amazônia. Lembrando que a saída para a crise de 1929 se passou em parte pela cobrança agressiva de seus países devedores e posteriormente guerras.
Trump e Bolsonaro que sempre se mostra
feliz ao lado do seu ídolo.
      A saída para o Brasil é, a meu ver, a greve geral! Uma força popular capaz de derrubar os atuais governantes de palácio com a cassação da chapa presidencial e reivindicação de políticas base da economia nacional, como reforma agrária, investimento pesado em educação, ciência e saúde, reforma urbana, reforma tributária, revogação das reformas trabalhistas e revogação também da Emenda Constitucional do Teto de Gastos que congela por 20 anos os investimentos em serviços sociais essenciais para a população, principalmente a mais pobre.
      Para concluir, levanto aqui a necessidade de debatermos as melhores saídas para a crise. Não uso o meu ponto de vista como o “único a ser seguido” ou o “único correto”, mas é fato que estamos à mercê de um novo regime autoritário que surgiu do lodo da ignorância e tem muita sede pelo poder. Precisamos pensar urgente em uma saída, pois o autoritário presidente da República quer triunfar sobre o caos e isso é muito perigoso!


Referências:

Vídeo mostrando Bolsonaro batendo continência à bandeira dos EUA: https://www.youtube.com/watch?v=bI-_P6K8YXU

Reportagem da IstoÉ sobre a declaração de Bolsonáro à Trump: https://istoe.com.br/bolsonaro-diz-i-love-you-para-trump-que-desdenha-bom-te-ver-de-novo/


Para saber mais sobre o golpe de 1964: https://www.youtube.com/watch?v=4ajnWz4d1P4

Para melhor entender o processo histórico de exploração da América Latina recomendo a leitura do livro As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano. Podendo encontrar para a compra nesse site: https://www.estantevirtual.com.br/livros/eduardo-galeano/as-veias-abertas-da-america-latina/1785822659?q=eduardo+galeano+as+veias+abertas+da+america+latina





09/04/2020

Positivismo e a ironia do destino.

Por: Andrej Carraro

Ao ler o livro A Formação das Almas de José Murilo de Carvalho tive a oportunidade de aprender um pouco sobre as origens dos principais símbolos da nossa República, um desses é a nossa bandeira. Ao observar as incoerências explícitas em certos grupos que se manifestam nas ruas ou redes sociais, quero me debruçar aqui sobre a história da bandeira do Brasil e explicar mais sobre a sua origem, como por exemplo, a frase Ordem e Progresso. Frase essa que remete a uma corrente filosófica, iniciada por um intelectual francês nascido no final do século XVIII, Auguste Comte.

Sendo o criador do positivismo, Comte era adepto do profundo conhecimento científico, segundo o qual, para que a sociedade pudesse evoluir deveria estar alicerçada na ciência, ou seja, em estudos e pesquisas concretas e objetivas da realidade. Desse modo, cada vez mais seríamos capazes de buscar respostas por meio da ciência, que seria uma forma superior de saber, se comparada a todos os outros meios de conhecimento. Sendo assim, a sociedade rumaria a uma linha reta de evolução sem desvios, um contínuo progresso. Além disso, Comte foi o primeiro que propôs a necessidade de estudar mais profundamente e desvendar os diversos aspectos de como funciona a sociedade e como direcioná-la para o que ele consideraria um melhor desenvolvimento. Por isso é considerado o pai da Sociologia.

Comte fundou a Religião da Humanidade ou a Religião Positivista que tinha como princípio a ciência como maneira de organizar cada aspecto da vida social e que pudesse posteriormente substituir as religiões tradicionais com o objetivo de levar a sociedade ao pleno avanço científico, tecnológico, social e moral.

No final do século XIX as ideias comtianas positivistas no Brasil, difundidas mais fortemente pelos militares, foram capazes de derrubar uma monarquia e estabelecer a República como um sistema político mais “evoluído” que o “atrasado” modelo monárquico, mesmo que para isso fosse necessário um golpe. Um presidente foi escolhido, sendo ele o militar Marechal Deodoro da Fonseca. Um hino foi preciso fazer. Surgiu Leopoldo Miguez como vencedor do Grande Concurso, mas não foi aceito pelo povo. Espertamente, Deodoro decidiu manter o antigo hino de Francisco Manuel da Silva para não contrariar o povo e, posteriormente, a letra foi composta por Joaquim Osório Duque Estrada. Surgiu o tão conhecido hino nacional brasileiro que é cantado orgulhosamente até os dias de hoje.

A bandeira era também um importantíssimo símbolo a ser modificado, os autores dessa mudança foram Raimundo Teixeira Mendes, Miguel Lemos, Manuel Pereira Reis e Décio Vilares. Estes, apenas modificaram alguns aspectos como o losango redimensionado e a substituição do elemento central da bandeira que representava as Armas do Império para uma esfera azul com uma faixa branca, onde se estende a frase de Auguste Comte: Ordem e Progresso.

A escrita Ordem e Progresso na então nova bandeira teria origem na frase “o Amor por princípio e a Ordem por base; Progresso por fim” de Comte, uma de suas mais conhecidas. Na década de 1930, Noel Rosa criou a música Positivismo, rica em detalhes e referências como já de início quando cantava o verso “a verdade meu amor, mora num poço” em referência ao quadro do francês Jean-Léon Gérôme “A Verdade Saindo do Poço”, baseado em uma parábola.

Agora, em 2020, estamos vivendo em um momento de muita incerteza, tristeza, insegurança e negacionismo da ciência, muito bem representado por boa parte de nossos governantes. Um perigoso encontro entre poder e ignorância que se espalha e se sente orgulhoso de se manifestar pelas ruas de nossas cidades. A anticiência, o negacionismo, o ódio, a ignorância, o preconceito e a preguiça de buscar conhecimento de pessoas que enrolam a bandeira brasileira e vestem camisetas da CBF, gritando contra a ciência, a OMS e os cientistas que defendem o isolamento horizontal para controlar a propagação do coronavírus. Os mesmos negacionistas também gritam contra as instituições políticas como o Congresso e o STF para implantar um regime político que dê praticamente um fim à ciência, ou pelo menos a possibilidade dela ficar subalterna da crença e do senso comum.

Eis aí a ironia! Uma frase positivista estampada na nossa bandeira. Não perceberam que estão usando a filosofia positivista indiretamente contra a ciência, contra o conhecimento e a evolução de uma sociedade! É claro que se imagina que esses manifestantes não conhecem a história de nossa bandeira. Se conhecem não entenderam, e se conhecem e entenderam, agem com desonestidade e mau-caratismo. Ironia do destino que tais cristãos “cidadãos de bem” que enrolam no corpo uma bandeira que leva uma frase de Auguste Comte, que tinha como objetivo, aos poucos e com a criação da Religião Positivista, eliminar a religião tradicional como conhecimento a ser seguido. Seriam eles inconscientes blasfemadores?

Não sou defensor do positivismo, penso que a ciência não é o único conhecimento que devemos adotar. Paulo Freire e Boaventura de Souza Santos, por exemplo, se opõem a essa linha de pensamento por achar que o senso comum e o conhecimento religioso também são importantes para a formação da pessoa na sociedade, assim como a ciência. Claro que não se referiam ao senso comum anticiência e negacionista, espalhados pelo WhatsApp, mas entendiam que nem tudo é preciso um estudo elaborado para comprovação de uma afirmação. Para explicar melhor, usarei como exemplo o conhecimento de nossas avós sobre o chá de boldo para dor no estômago. Não é originado de um estudo científico, mas esse conhecimento é passado de geração para geração.

Mesmo assim, dada às proporções é mais plausível que essa bandeira esteja enrolada em quem defende o Amor, Ordem e Progresso e que sabe que a ciência é fundamental para tudo isso. Essa bandeira pertence mais aos opositores desse pessoal apelidado nas redes sociais de “gado”.

Portanto, caro leitor, voltemos à parábola pintada no quadro de Jean-Léon Gérôme. A Verdade está saindo do poço, a Mentira roubou a roupa de Verdade e saiu vestida de Verdade, mas agora a Verdade está saindo do poço para castigar a humanidade, ou pelo menos àqueles que chamam os cientistas e os estudantes universitários de comunistas, maconheiros e surubeiros.

A_Verdade_saindo_do_poço, 1896
Referências:

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


História da bandeira do Brasil disponível em: 
https://brasilescola.uol.com.br/brasil/bandeiradobrasil.htm

História do hino nacional disponível em: 
https://brasilescola.uol.com.br/historiab/hinonacionaldobrasil.htm


Música Positivismo de Noel Rosa disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=YRif-VzbCSs

07/04/2020

Na pandemia a vida pulsa

Por: Everton Marcos Grison


Sábado. Acordo e o WhatsApp está vertendo mensagens nos grupos de escolas e de professores. Muitos, muitos mesmo, baixaram o aplicativo da Aula Paraná e sofrem com as incertezas, falta de informação, com dificuldades. São 8h da manhã. 8h da manhã de um sábado. Outros enviam prints dos chats, de algumas mensagens inacreditáveis. São verdadeiras? Pouco importa. O que importa é que são 8h da manhã de um sábado. Estamos isolados devido a proliferação do coronavírus. Outros professores assistem às aulas na TV, nos novos canais criados: 7.2, 7.3, 7.4... O relógio parou e marcam 8h da manhã. Todos fazendo home office além da conta. Tem limite de tempo nessa orquestração de trabalho, já que o celular é o principal instrumento de trabalho? Não soltamos o celular e, portanto, não deixamos de trabalhar. Curiosamente quando estamos em casa, em isolamento, estamos trabalhando freneticamente. Sempre estivemos, pois ser professor é padecer do mal da profissão totalizante: tudo é trabalho ou se torna material, exemplo ou atributo para aulas e indicações aos alunos. Baixo o aplicativo também. É a vida. Ninguém está isento. Abro. Lembro que é sábado, em um pequeno lapso de memória. Amigos e colegas estão reclamando do aplicativo no grupo da escola, no WhatsApp: "Como faz isso?", "Como ficarão aqueles?". Largo o aplicativo e lembro do livro de José Saramago: Intermitências da Morte, o qual estou lendo. Lá fora o Sol se apresenta. Desisto do aplicativo, não retomo a leitura do livro. Decido atender os gritos da Helena Sofia, reclamando de que o seu desenho está travado. Ela também não pode esperar. Está em isolamento desde... Faz tempo. Desisto dos pensamentos também. Coloco uma touca e uma blusa, para parecer um pouco doente diante dessa situação de isolamento, buscando esconder que sou privilegiado por estar em casa, enquanto muitos estão expostos ao vírus nos seus ambientes de trabalho, que não suspenderam as suas atividades. Não é privilégio. É necessidade e obrigação. Tanto faz. Abro a porta da sacada e percebo que, conosco ou não, a vida continua se movimentando. Prova disso é que o bonsai de amora está com novas frutas maduras. A vida continua. Já não somos os mesmos de antes da pandemia. Mas quando fomos alguma coisa, para além de arremedos que se orgulham em trabalhar sempre? Melhor estar empregado que desempregado. Já imaginou? Verdade. Eu sei como o desemprego é enlouquecedor. Quantos vão tombar hoje? Não sei. O boletim não saiu. Ainda são 8h da manhã!