07/04/2020

Na pandemia a vida pulsa

Por: Everton Marcos Grison


Sábado. Acordo e o WhatsApp está vertendo mensagens nos grupos de escolas e de professores. Muitos, muitos mesmo, baixaram o aplicativo da Aula Paraná e sofrem com as incertezas, falta de informação, com dificuldades. São 8h da manhã. 8h da manhã de um sábado. Outros enviam prints dos chats, de algumas mensagens inacreditáveis. São verdadeiras? Pouco importa. O que importa é que são 8h da manhã de um sábado. Estamos isolados devido a proliferação do coronavírus. Outros professores assistem às aulas na TV, nos novos canais criados: 7.2, 7.3, 7.4... O relógio parou e marcam 8h da manhã. Todos fazendo home office além da conta. Tem limite de tempo nessa orquestração de trabalho, já que o celular é o principal instrumento de trabalho? Não soltamos o celular e, portanto, não deixamos de trabalhar. Curiosamente quando estamos em casa, em isolamento, estamos trabalhando freneticamente. Sempre estivemos, pois ser professor é padecer do mal da profissão totalizante: tudo é trabalho ou se torna material, exemplo ou atributo para aulas e indicações aos alunos. Baixo o aplicativo também. É a vida. Ninguém está isento. Abro. Lembro que é sábado, em um pequeno lapso de memória. Amigos e colegas estão reclamando do aplicativo no grupo da escola, no WhatsApp: "Como faz isso?", "Como ficarão aqueles?". Largo o aplicativo e lembro do livro de José Saramago: Intermitências da Morte, o qual estou lendo. Lá fora o Sol se apresenta. Desisto do aplicativo, não retomo a leitura do livro. Decido atender os gritos da Helena Sofia, reclamando de que o seu desenho está travado. Ela também não pode esperar. Está em isolamento desde... Faz tempo. Desisto dos pensamentos também. Coloco uma touca e uma blusa, para parecer um pouco doente diante dessa situação de isolamento, buscando esconder que sou privilegiado por estar em casa, enquanto muitos estão expostos ao vírus nos seus ambientes de trabalho, que não suspenderam as suas atividades. Não é privilégio. É necessidade e obrigação. Tanto faz. Abro a porta da sacada e percebo que, conosco ou não, a vida continua se movimentando. Prova disso é que o bonsai de amora está com novas frutas maduras. A vida continua. Já não somos os mesmos de antes da pandemia. Mas quando fomos alguma coisa, para além de arremedos que se orgulham em trabalhar sempre? Melhor estar empregado que desempregado. Já imaginou? Verdade. Eu sei como o desemprego é enlouquecedor. Quantos vão tombar hoje? Não sei. O boletim não saiu. Ainda são 8h da manhã!

21/03/2020

Um livro necessário contra o senso comum


Por: Jonas J. Berra

    O livro “Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota” de Álvaro Borba e Ana Lersnovski foi publicado no final de 2019. Tem como objetivo destruir as mentiras da obra do pseudointelectual Olavo de Caralho e seus asseclas, principalmente no que tange à compreensão dos problemas das ciências naturais (física, astronomia, química e biologia) e das ciências humanas (filosofia, sociologia, história, política e economia). Porém, não se trata de criar uma outra verdade, tão falsa quanto a do pseudointelectual, pois o que está em jogo não é apenas quem tem mais razão, mas impedir o mal da ignorância e desinformação, tão nocivos à uma compreensão genuína da verdade objetiva. Não sendo, desse modo, aquela “verdade” fabricada com interesses políticos e religiosos, tais como a do astrólogo enganador.


     A obra mistura a seriedade do problema a ser combatido, isto é, a idiotice, com pitadas de humor, que exige certo grau de atenção para quem não está familiarizado com a temática. Isto porque quando se fala do tal “guru” da direita com a população não acadêmica e menos interessada em política e ciência, a resposta é: “quem?”. Claro que a maioria das pessoas não saberá de quem se está falando, o tal “filósofo. Mas há um grande risco de que pessoas simples e desinformadas entrem em alguma livraria e se deparem com um livro volumoso, cujo título parece revelar toda a verdade sobre o mundo: “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. É tentador, não é? A tentação está justamente no fato de que nenhum de nós deseja ser idiota. Nisso consiste seu sucesso: massagear o ego arrogante do IDIOTA.
    É diante da ameaça da continuidade do avanço da massa arrogante e pseudointelectual que a obra “Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota” se torna uma luz de esperança. Durante a leitura da mesma, é possível encontrar capítulos discutindo idiotices de redes sociais, como o “terraplanismo” e o “gaysismo esquerdista comunista”. Parece que quanto mais bizarra é a ideia ou teoria da conspiração, mais ela se espalha. Desse modo, entende-se por teoria da conspiração uma ideia falsa que é aceita pelas pessoas. A obra de Álvaro Borba e Ana Lersnovski é uma espécie de antídoto contra ela.

Veja abaixo alguns capítulos da obra, que desconstroem as principais teorias conspiratórias que corroem a mente de parte da população do Brasil:

Capítulo 1 - Teorias conspiratórias são irrefutáveis, mas isso não as torna verdadeiras.
Capítulo 6 - Direitos humanos não são uma ferramenta de dominação global.
Capítulo 7 - Politicamente correto é coisa da direita.
Capítulo 12 - Ideologia de gênero, não; Estudos de gênero, sim.
Capítulo 16 - Vacinas são seguras.
Capítulo 17 - A Terra é plana, e mais: ela gira em torno do sol.
Capítulo 19 - Não há razão para duvidar das mudanças climáticas.
Capítulo 21 - O Foro de São Paulo jamais foi uma organização secreta.
Capítulo 22 - A lei Rouanet não é uma mamata.

    Observando-se os títulos dos capítulos, percebe-se que é uma obra que não possui a necessidade de ser lida de uma maneira linear. Se você quiser pode começar desconstruindo aquele assunto que você mais ouve falar por aí, como a ideia de que a Terra é plana ou de que a lei Rouanet é coisa de vagabundo esquerdista para roubar dinheiro público.
    Um dos méritos da obra é ser uma crítica realista, honesta e objetiva sobre pensamentos, ideias, teorias conspiratórias que se popularizaram em meio ao senso comum de grupos mais vulneráveis: pessoas de várias faixas etárias, que em geral possuem pouca leitura e baixo ou nenhum conhecimento dos procedimentos da pesquisa científica. Não é à toa que a maioria dessas pessoas nunca deve ter lido algo de Richard Dawkins, Umberto Eco, Maquiavel, Gramsci, Freud, Hannah Arendt ou Paulo Freire. Tudo que dizem saber é por intermédio do “guru”, que fez todo o trabalho sozinho. E elas, não se dão o trabalho de checar o conteúdo da obra.
    Portanto, creio que a obra de Álvaro Borba e Ana Lersnovski se situa em meio a um paradoxo: virar referência dos mais estudiosos contra a pseudointelectualidade e, por outro lado, ser criticada pelos alienados como ofensa ao “guru”. Desse modo, não cabe a este texto resumir a obra para os preguiçosos que se alimentam do senso comum, mas provocar o desejo dos que buscam o saber por conta própria, como ensinava Horácio e Kant: “Ouse saber!”.